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DISCURSO NA TOMADA DE POSSE COMO MEMBRO DA ACADEMIA AMPARENSE DE LETRAS
À ACADEMIA AMPARENCE DE LETRAS
Dom Pedro Carlos Cipolini – Bispo Diocesano de Amparo
Discurso na tomada de posse da cadeira nº 2 em 11.11.2011

Permitam-me senhores e senhoras, ilustres membros desta Academia Amparense de letras, neste momento de minha fala, iniciar agradecendo de coração a lídima distinção que me fizeram de incluírem-me entre vós como o mais novo membro desta Academia. Templo do saber com ilustração e conhecimento, a Academia Amparense de Letras é um baluarte resistente, na preservação da cultura em meio a procelas e mudanças radicais, por que passamos em todos os âmbitos da sociedade.
Sou imensamente agradecido pela distinção que me enaltece, embora reconheça que existem é claro outros que certamente fariam jus com maior propriedade a esta escolha de minha pessoa, feita pelos ilustres membros da Academia. Sou grato e atribuo a escolha mais à Igreja Católica que represento que a meus méritos literários pessoais. De fato, a Igreja Católica contribuiu na formação da cultura da cidade de Amparo, contribuiu para o aprimoramento de seus valores culturais em todas as suas vertentes.
A Academia Amparense de Letras com seus 40 componentes, qual semente fecunda e poderosa, germina no silêncio, muitas vezes, não deixando perder-se aquilo que de mais valioso uma cultura pode conter. E o que seria este mais valioso bem? É o saber sim, o conhecimento, a ciência, o distintivo de qualquer Academia ou acadêmico, e ainda mais em nosso tempo dominado pela ânsia de eficiência. Porém, de que nos serviria o saber e a ciência sem a alma? E a alma do saber e da ciência é o sentimento, o coração, o amor a fé. Permitam-me recordar a fala do filósofo Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
A Academia Amparense de Letras tem se destacado pelo cuidado em perpetuar um saber com alma, um saber com o coração que os latinos chamavam sapientia cordis. É isto o que auferimos, ao entrar em contato com as obras dos acadêmicos que compõem esta Academia, cada um com sua peculiaridade e brilho próprio. E se hoje nossa cultura por vezes parece tão frágil e inconsistente é por falta desta sabedoria do coração, a qual dá sabor a uma cultura, dá brilho e verve. Nada é possível sem os homens, mas nada pode durar sem as instituições. Parabenizo por isso esta Instituição, a Academia que me acolhe, instituição de saber, preservadora do que há de mais nobre em nossa cultura.
Na pessoa de seu presidente o ilustre amparense e jurisconsulto, Sr. Dr. Adib Fares Sad, saúdo a todos os componentes da Academia, componentes que de hoje em diante serão meus pares. É uma honra para mim ser distinguido com a companhia de tão ilustres companheiros e companheiras de respeitável porte intelectual e humanístico. Em especial quero saudar o distinto acadêmico Professor Mestre Sr. Alexandre José Silva, que ocupa a cadeira nº 11, e que generosamente indicou-me para estar aqui hoje, fazendo parte desde agora da Academia Amparense de Letras. É-me grato agradecer mais uma vez, pois a gratidão é a memória do coração e ela deve ser memória imorredoura. Agradeço também a todos os que aqui estão, pela presença que me honra.
Devo neste momento fazer portanto a memória do patrono da Cadeira nº 02 a mim destinada nesta Academia, o ilustre acadêmico Sr. Octacílio Cunha de Oliveira e também de minha predecessora nesta cadeira, a ilustre poetisa Sra. Rachel Sampaio.
Otacílio Cunha de Oliveira, nasceu em Amparo, no dia 27 de setembro de 1916 e faleceu em 09 de abril de 1955. Filho de Octavio de Vasconcellos e Maria José cunha Oliveira. Cursou a primeira série ginasial no Seminário do Ginásio Santa Maria, em Campinas, em 1930, porém não pode dar continuidade aos seus estudos pois, desde os nove anos, sua saúde foi ficando debilitada. Nada, porém, impediu que sua inteligência inata brotasse robustecida, a cada instante de sua vida. Tornou-se conhecedor de diversos idiomas, como o francês, espanhol e o latim, sendo que traduzia perfeitamente do inglês e tinha uma predileção toda especial pelo nosso idioma, o português, que manejava com maestria. Sendo ainda exímio taquígrafo por correspondência. Tinha dons artísticos com pendor para o desenho. Octacílio colaborou com diversos jornais, iniciando sua colaboração no jornal “O Comércio” e no “Amparo Jornal” e na página universitária do “Correio Popular” em Campinas, e no “Socorro Jornal”, da vizinha cidade de Socorro. Octacílio foi um apreciado cronista, tendo produzido crônicas desde 1939, como “O incêndio da Mata”, “Boi blindado” e muitas outras. Muitas vezes usava o pseudônimo de Ribeirinho. Foi um eficiente funcionário da Câmara Municipal de Amparo, aposentando-se por invalidez.
No início da Rádio Difusora de Amparo, Octacílio deu também a sua colaboração trabalhando nos estúdios e escrevendo crônicas da Ave Maria, cujas colaborações ele fazia espontaneamente, por amor á sua terra. Era um poeta inspirado, amante da arte de cantar a vida, o amor e o infinito, através da magia das palavras ditas com a alma e com o coração. Devido à sua musa que ainda vive, ter olhos verdes, foi Octacílio Cunha cognominado o “Poeta dos Olhos Verdes”. Era ele porém o singelo mensageiro do verde, do azul, branco e de todas as cores e coloridos pois amava grandemente a natureza. Buscava sempre a amizade das criaturas simples, dos humildes como ele. Sua poesia mística e humanitária, louvava sempre o amor em especial o amor de sua amada. Em seu corpo franzino desenvolveu-se uma alma de gigande, gigante da sensibilidade humana e da percepção do mistério divino em todas as coisas. Alma de pureza cristalina, na sua simplicidade foi um poeta e um profeta da beleza.
Permitam-me agora, falar da ilustre poetisa Rachel da Gama Sampaio, minha predecessora na cadeira número dois que passo a ocupar nesta Academia. Nascida em Amparo, era filha do Dr. Paulo de Campos Sampaio e de Dª Maria Stella Gama Sampaio. Viúva de Joel Minervino Linck, mãe de Rachel Sampaio Linck e de Maria Stela Sampaio Link. Autodidata, sua poesia era livre e universalista, tendo recebido inúmeros prêmios literários e participado de diversas coletâneas por todo o Brasil. Foi membro fundador da Academia Amparense de Letras, titular da Cadeira nº 2 cujo patrono é Octacílio Cunha de Oliveira. Foi candidata à Academia brasileira de Letras em 2001. Era uma alma peregrina, profundamente espiritual, cristã e identificada com o amor universal, cósmico, à luz sempre dos postulados da inteligência. Nas palavras do poeta e acadêmico Marcelo Henrique, autor do prefácio a dois de seus livros, “quem lê os suavíssimos versos de Rachel Sampaio, poderá lembrar-se do Cântico dos Cânticos, e principalmente do que o Cântico diz em 8,6: “ o amor, é forte, como a morte”. Autora de vários livros como “Encanto com o Universo” (poemas – 2001), “ Pensamentos, Reflexões e Eternidade” – 2006 e “Murmúrios de Sonhos” (poemas – 2008). Lançou também, quase uma dezena de CDs-livro. Deixa inéditos os livros “ O Poeta de Deus” (poemas) e “Terra Prometida – Caminhos do Coração “ (Crônicas biográficas). Rachel Sampaio faleceu em 28 de julho de 2010 aos 75 anos de idade.
A obra poética de Rachel Sampaio é, segundo seu prefaciador Marcelo Henrique, “em última análise, uma oferenda que a poetisa oferece ao Mestre Jesus e ao pai, Criador de todas as coisas, uma vez que ela escreve como quem ora, gerando mantras de amor e oferendas votivas no altar do próprio coração”. Poetisa consumada, seus versos são completos e brotam do fundo da alma, soube descrever o que é o poeta como ninguém, com uma arte que brota do coração como neste trecho de um poema intitulado “Sina de Poeta” que me permitam citar:
Ser poeta é trilhar um caminho
Que não tem fim! É uma aurora se iniciando,
É uma névoa da noite acontecendo!
Ser poeta é missão, é compreensão.
Ser poeta é seguir o Mestre e seguir a alma,
É querer morar no eterno!
É querer planar no infinito!

Ser poeta é uma sina
Que a gente não espera
E que chega como dádiva divina
Dada aos escolhidos,
Aos que vieram para carregar a cruz
Carregada de estrelas para iluminar caminhos,
Para acalmar as dores, para alegrar a vida!
Ser poeta é uma sina! ( cf. in AAL, Antologia/2004, p,133)

Ao ler alguns escritos destes dois acadêmicos chamou-me a atenção a pureza, fineza e profundidade do sentimento humano e religioso com que fazem a abordagem das situações vitais que emergem dos seus escritos. A partir desta constatação, permitam-me prezados ouvintes, a quem agradeço imensamente a presença que muito me honra, dizer uma palavra sobre nossa cultura em relação ao sentimento amoroso e religioso.
A cultura de uma sociedade, compreende tanto aspectos tangíveis, como objetos, símbolos ou tecnologia desenvolvida que toma forma na sua arquitetura e inventos múltiplos; Como também aspectos intangíveis, como as crenças, idéias e valores que formam o conteúdo da cultura. Fundamental a toda cultura são as idéias que definem o que é considerado importante, válido e desejável. Essas idéias abstratas ou valores dão sentido e fornecem direção aos humanos enquanto estes interagem com o mundo social. Entre estas idéias abstratas estão a filosofia e a religião. Juntamente com as lideranças e os sistemas de comunicações, a religião é um fator cultural que influi sobremaneira nas mudanças sociais. As convicções religiosas têm papel importante numa cultura e nem sempre atuam como resistência a mudanças, mas muitas vezes, desempenham um papel mobilizador nas mudanças sociais. Pois o sentimento religioso, inato no ser humano, mora no seu íntimo. Como escreveu Santo Agostinho: “Deus é mais íntimo a mim do que eu mesmo”.
Dentre os fatores culturais que afetam os processos de mudança social nos tempos modernos, o desenvolvimento da ciência e a secularização do pensamento contribuíram para o caráter crítico e inovador da percepção moderna. Além do modo como pensamos, o conteúdo das idéias também mudou. E nós nos perguntamos se a evolução do pensamento atual precisa deixar de lado o sentimento amoroso e religioso, a fé em Deus e o amor à beleza, para ir avante? Qual a raiz do progresso que hoje temos? Nas marchas e contramarchas da história, não podemos negar que na raiz do progresso a que chegamos no Ocidente está a fé, e mais precisamente o cristianismo. De onde vieram os ideais de auto-aperfeiçoamento, liberdade, igualdade que são criação destes últimos três séculos? O cristianismo pode não ter se composto com tudo, em todos os momentos, mas é inegável que brota da civilização cristã o sentimento mais profundo da dignidade humana e dos direitos humanos, e isto, porque Deus se fez homem. Em Jesus Cristo, Deus se encarnou e entrou na história humana. O ser humano desde então, é convidado a entrar no dinamismo da divindade que é o amor, maior mandamento ensinado por Jesus: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”.
Através de gerações de filósofos, teólogos, sociólogos - doutos, visionários ou ingênuos, produziu-se nos tempos modernos o mito da secularização. O nosso é um mundo secularizado. No sentido em que século, designa a realidade não sagrada contraposta ao que é eclesiástico. A secularização tem um sentido positivo, pois indica a autonomia das realidades terrestres em relação à autoridade eclesiástica. Porém, a transposição desta realidade da secularização ampliando-a e aplicando-a a toda a realidade da criação propondo um mundo sem Deus, é uma exorbitância do termo e da realidade que designa, uma pretensão insana. Assim, a secularização se torna “secularismo”: o banimento de Deus de toda realidade humana. Ao despedir Deus, despede-se também a beleza e a Alegria e tudo o que se passa a cognominar belo se torna drama, e o que se passa a chamar alegria se torna tragédia.
Mas em que se baseia este conceito de secularização que se torna secularismo? De uma parte se baseia na convicção da incompatibilidade entre a fé cristã que moldou a cultura ocidental e cultura moderna, e de outra parte se baseia em uma filosofia e uma ética que desejava ocupar no coração e no espírito do homem o lugar da religião. Deus morreu dirá Zaratustra - o herói nitszcheano - e nós o matamos! O mundo se tornou “adulto” e não há mais a necessidade da tutela de Deus. A morte de Deus é a morte do Pai, a morte da autoridade. Uma pretensão cujas conseqüências a Bíblia Sagrada nos mostra no episódio da torre de Babel: sem Deus o homem não se explica, se complica (Gn 11, 1-9). E não seria exorbitante afirmar que grande parte das complicações no relacionamento das pessoas hoje em dia, derivam da negação e alheamento de Deus, posto que se Deus não existe, tudo é permitido pois não haveria porque seguir algum postulado ético ou comunitário. Haja vista a crise que atinge a instituição familiar.
Enfim, após esta preleção sobre o avanço do ateísmo nos dias de hoje, em que pese o aumento do sentimento religioso em muitas camadas da população, podemos constatar que existe na condição humana uma tendência a desenvolver um sistema de significado último e a torná-lo sagrado. A fé em Deus brota de uma exigência do íntimo do ser humano. A percepção da existência de Deus e sua presença é inata no coração humano. Assim sendo, o juízo convencional, que considera o homem evoluído ao ponto de não ter mais necessidade da fé e do sagrado, não se baseia sobre a evidência empírica, mas sobre conclusões apriorísticas a respeito do processo evolutivo humano. (cf. in A. Greeley, L´Uomo non secolare. La persistenza della religione, Brescia, Queriniana, 1975, 47-48).
Partindo destas premissas, volto a considerar nosso Acadêmico Octacílio Cunha de Oliveira, patrono da cadeira que passo a ocupar nesta egrégia Academia, ressaltando seu sentimento religioso e, em sendo poeta, por que não dizer místico? Místico no sentido de ter uma inteligência tão desperta e lúcida, ao ponto de perceber a presença do Mistério profundo que nos envolve, Mistério que é a própria origem e fonte de todo ser: Deus. Octacílio legou-nos algumas obras valiosas como “Meu Caminho”, livro dividido em duas partes – Poemas de Minha Noite (23 poemas) e Poemas de Meu dia (26 poemas), foi escrito em 1952, com prefácio de Aristides Fernandes. É dele o soneto que segue, intitulado “O Amor de Cristo” que permitam-me citar aqui na íntegra:
Ah, se o amor existisse, nobre e santo,
O amor de cristo n´alma se aninhasse;
Se cada mão, amorosa, abençoasse,
Seria extinta a dor, enxuto o pranto!

Ah, se o amor existisse, o amor reinasse,
O grande amor, o amor que vale tanto,
Como o sorriso bendito de seu canto,
O rosto do odiento iluminasse!

Por isso é que, no mundo, a magua intensa
Rouba a luz, rouba a paz, o afeto e a crença,
E o sofrimento mais se recrudesce!

Mas se os homens se amassem com ardor,
Quanta ventura se existisse o amor,
O amor de cristo, que ninguém conhece!

Este soneto honra a tradição religiosa de Amparo que tem em Jesus Cristo o Mestre inigualável, o qual aqui se faz poesia, assim como no alto da montanha que sobranceia a cidade de Amparo, se faz arte também, em forma de escultura, a qual simboliza a benção e o abraço, dado a Amparo pelo maior dos Filhos dos Homens: o Filho de Deus. Igualmente remando contra a maré do secularismo, temos a poesia de Rachel Sampaio que mostra-nos a força viva de inquietação que os poetas ijetam na cultura, com seu profetismo visionário, o qual foge a qualquer padrão preconcebido ou ideologia predita.

Para os poetas o mundo sem o Mistério é o mundo do desencanto, o mundo descolorido no qual não vale a pena viver. Para o verdadeiro poeta o mundo sem Deus é o mundo sem poesia porque sem beleza. E aqui não podemos esquecer que, se Deus é a suprema verdade Ele é também a suprema Beleza e os poetas sabem que “é a beleza que salvará o mundo”, como escreveu o teólogo Paul Evdokinov. Por isso permitam-me ainda citar um poema de rara beleza no qual Rachel Sampaio nos coloca de forma singular diante do Mistério do Absoluto de Deus ao qual devemos todas as dádivas e dons; e diante do qual me prostro reverente por todo bem que tem feito em minha vida, e com isto termino. Termino com o poema “Tudo é Teu Senhor”:

Nada é meu, Senhor
Tudo é teu ó Pai!
De mim, tudo o que ensinaste:
O amor, a verdade e a luz
Da santa caridade.

Nada é meu, Senhor!
Tudo pertence a Ti, Senhor.
Faze de mim um instrumento “Teu”
Do amor, do perdão, da verdade!

Tudo é teu, Senhor!
Onde estou? Onde estarei?
O caminho em que ando
É teu, Senhor, pois me preocupo
Em fazer a tua vontade,
O Teu amor brilhar em todo o meu caminho!

Tenho dito, Obrigado!

Amparo, 11 de novembro de 2011




 
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